Carta ao Papa: a voz dos esquizofrênicos na Terra

Santo Padre Papa Leão XIV,

Com humildade e espírito de comunhão,  dirijo-me a Vossa Santidade, como um filho batizado na fé católica, devoto da tradição, portador de uma cruz silenciosa chamada esquizofrenia e buscador da verdade, com mente cética, mas coração crente. Escrevo não somente por mim, mas por todos aqueles que como eu, vivem à margem dos templos, não por falta de fé, mas por tormentos interiores, que tornam o caminho eucarístico, uma via dolorosa e solitária. A esquizofrenia ainda não é amplamente compreendida, inclusive dentro da Igreja. Muitos de nós não conseguimos frequentar a missa, participar de grupos ou sequer, rezar com liberdade, pois somos atravessados por vozes, imagens que nos confundem, ainda assim muitos permanecem fielmente agarrados à Cruz, e à Cruz católica com o amor que restaura a razão. Por isso, pedimos à Igreja que nos veja, que nos estude, que nos escute. Suplicamos que Vossa Santidade considere a possibilidade de uma reflexão mais profunda do Magistério sobre a esquizofrenia e sua interface com a fé, para que bispos, padres e ministros saibam o que se pode ou não pode esperar sacramental e pastoralmente dos filhos esquizofrênicos da Igreja. Sugerimos que seja promovido um documento ou diretório pastoral sobre o cuidado espiritual das pessoas com esquizofrenia, que reconheça a possibilidade de que “combater” a fé no interior da mente seja uma forma de oração, que se incentive uma pastoral voltada aos reclusos da fé, aqueles que não saem de casa, mas gritam por dentro  “Senhor, eu creio”, que promovam associações entre esquizofrênicos católicos que desejam se reconhecer na fé e talvez um dia entre si. Se a Igreja reconhece que ”Deus quis dar maior honra aos que menos tem, para que não haja divisão no corpo, mas todos os membros se preocupem igualmente uns com os outros”. (I Coríntios, 12, 24). Então, com temor e confiança vos digo, a parte mais esquecida do corpo clama por atenção. Que esta carta seja semente ou mesmo apenas vento, mas que ele leve ao Santo Padre e seus pastores o perfume de um povo esquecido e amado.

Com reverência filial e amor eclesial, 

Marcelo Alves de Araujo

Conhecido na literatura como Marcelo Beloto.

É uma característica do povo brasileiro, de que quando são chamados por apelidos , com amor, isso os fazem gostar mais dos apelidos com os quais são chamados mais do que do próprio nome.

Patos de Minas, Minas Gerais, Brasil.

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Autor: marcelobeloto

Sou esquizofrênico e católico e escrevo sobre isso.

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